Um breve relato de um Juiz tatuado

As vezes ainda me surpreendo com o preconceito que a tatuagem ainda sofre no Brasil, principalmente pelo fato de a capacidade profissional daspessoas ainda ser julgada por estas possuírem tatuagens. É tão cômico quanto deprimente ver que um bom profissional pode ser desqualificado em uma entrevista de emprego por possuir uma tatuagem enquanto em outras empresas a tatuagem é ignorada ou até mesmo um ponto a mais para o candidato.

Um texto me chamou a atenção ao ver o relato de um Juiz da 2ª Vara de Penápolis (SP) fala sobre casos que viu a trabalho relacionados a tatuagens e ele mesmo como tatuado expõe o que pensou nestes momentos, leiam abaixo:

 

Não faz muito tempo que resolvi fazer tatuagens. Não foi uma decisão difícil não, pois achava legal e concluí que não havia, como de fato não há, impedimento algum. Eu queria também provar para mim mesmo que tinha me livrado de uma pitada de preconceito que tinha na época da atividade policial. E talvez ajudasse outras pessoas a desmistificarem certas impressões…

Geralmente a primeira reação de quem toma ciência das “tatoos” é a de surpresa. Afinal, há algum tempo não se cogitava que um magistrado fosse tatuado. Aliás, a sociedade, de maneira geral, atrelava a tatuagem ao delinquente.

O preconceito e a discriminação contra os tatuados estão sendo gradativamente reduzidos. A prática se difundiu e as pessoas estão se acostumando com as tatuagens e se convencendo de que não passam de adornos.

Eu mesmo me perguntei, no dia seguinte ao do início do desenho: será que quem me avistar na rua vai pensar que eu não presto só por causa da tatuagem? Será que ontem eu era pessoa de bem, cumpridora dos deveres, e hoje, apenas por conta do desenho, já não tenho valor algum, já não sou digno de respeito e confiança? Pior que para alguns é exatamente isso…

O grande problema é que as pessoas firmam convicções sobre outras mais pela aparência do que pelo caráter. E é por isso que estelionatários bem trajados e articulados fazem a festa!

Recentemente um candidato ao cargo de soldado PM 2ª Classe foi reprovado porque a tatuagem era maior do que a permitida pelo edital e o tribunal paulista o reintegrou ao concurso (Apelação nº 0030009-93.2010.8.26.001). O mesmo Tribunal condenou quem fez tatuagem em menor de 18 anos sem consentimento dos pais pela prática de lesão corporal grave pela deformidade permanente (Processo 0008522-88.2009.8.26.0070). Mas o objetivo aqui não é estimular ninguém a se tatuar ou alertar para os riscos, pois cada um tem seu livre arbítrio e sabe se poderá ou não sofrer prejuízo, especialmente no campo profissional. Quero apenas relatar situações curiosas que já vivenciei em audiências.

Certa vez, ouvindo um usuário de drogas, queria saber dele se tinha adquirido maconha do réu acusado de tráfico. Ele confirmou. Eu perguntei se tinha sido a única vez e ele respondeu afirmativamente. E assim prosseguimos dialogando: Mas você já sabia que ele vendia? Não, senhor! Ele ofereceu? Também não. Mas então como é que a compra se consumou? Doutor, eu estava na fissura. Entrei num bar e avistei quatro “caras” sem camisa, todos tatuados, e logo pensei: esses caras devem vender o bagulho! Com a insinuação, por parte do próprio usuário, de que só pelo fato de ostentar tatuagens (inclusive no mesmo local em que tenho a minha), os indivíduos poderiam ser traficantes, o escrevente e o promotor discretamente sorriram para mim. Surpreendido com o raciocínio do dependente, respirei fundo para não rir e prossegui, prevendo que na minha carreira ainda enfrentaria momentos hilários por conta das tatuagens. Encerrada a audiência, diante apenas dos servidores, eu refleti: será que algum dia alguém vai perguntar para mim se eu vendo o “bagulho”? A risada foi geral…

Noutra oportunidade um réu acusado de estelionato lamentou muito por ter voltado a infringir a lei. Confesso, ele fez de tudo para demonstrar arrependimento e tradicionalmente pedir uma nova oportunidade para voltar ao convívio social. Ao final, suplicou: “Meritíssimo, só espero que me dê uma chance e que não me julgue pelas tatuagens que tenho pelo corpo!”. O mesmo escrevente e o mesmo promotor olharam para mim e aguardaram a minha reação. Não tive dúvida: fiquei de pé, exibi a tatuagem até então escondida sob a camisa e acalmei o interrogando: “fique tranquilo rapaz, só pelo fato de ser tatuado você não será condenado não”… Ninguém esperava que eu pudesse fazer aquilo. Mas a minha atitude reduziu a tensão e quem estava presente, ao mesmo tempo em que ficou surpreso, reagiu positivamente. Fiquei sabendo até que a advogada depois elogiou a minha postura…

Em outras oportunidades nas quais criminosos foram reconhecidos pelas vítimas e testemunhas principalmente por causa de tatuagens identificadoras, também tive de me controlar porque achei graça dos meus colegas de trabalho, que não perdem a oportunidade de fazer seus comentários bem-humorados sobre o elo que ainda existe entre a tatuagem e o mundo do crime, tudo para me provocar.

O fato é que além de eu ter feito o que desejava sem me preocupar com julgamento alheio (mesmo porque não prejudicaria ninguém), parece que ainda me divertirei bastante com isso tudo…

Por Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira do blog Consultor Jurídico.

Interessante como no Estado de São Paulo um Juiz fala com naturalidade sobre sua tatuagem e como é tratado com todo o respeito que seu diploma e trajetória profissional lhe permitem,  enquanto isso matérias como as do vídeo abaixo ainda falam que em escritórios de advocacia não é recomendável o profissional ter uma tatuagem:

 

7 Comments

  • Pingback: ((( TRETA ))) › Bom dia!

  • Bianca

    26/01/2013

    Oi!!! Hj escutei de um professor de direito constitucional que para concorrer a um cargo no ministério público, pessoas tatuadas são excluídas durante o processo de seleção (após aprovação em provas e títulos)… É verdade? Pois tenho o sonho de ser promotora, mas em minha adolescência fiz várias tatuagens…Mas nada que um terninho não seja capaz de cobrir…
    Pois bem, é verdade isso?
    Gd abç!

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    • @OInternetico

      04/02/2013

      Oi Bianca,
      Minha noiva está no último ano de Direito e será juíza. De acordo com ela, tatuagens discretas tendem a passar pelos processos de aprovação em cargos públicos, diferentes das tatuagens que não podem ser escondidas por meio das roupas utilizadas nestes cargos.

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  • Bianca

    02/02/2013

    Achei bem legal a matéria. Sou advogada e tenho varias tatuagens. Como estou no início da carreira, por preconceito dos outros não tenho nos braços ainda, mas concordo que tatuagem não muda caráter!!

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  • Guns

    28/05/2013

    Estou no primeiro periodo de direito e tenho apenas 2 tatuagens, mas pretendo fechar todos os lugares que o terno pode esconder, e caso não possa trabalhar em alguma área eu ligo o bom e velho foda-se e vou fazer outra coisa HAHAHAHHA

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  • Emerson

    11/06/2013

    Sou bacharel em Direito e trabalho nas horas vagas em um escritório de advocacia. Recentemente aceitei defender a causa de uma candidata ao cargo de policial militar, a qual foi reprovada no exame de saúde por possuir tatuagem visivel aos uniformes da corporação. Como esperado, foi julgada improcedente a ação em primeiro grau. Fiz recurso de apelação e estamos aguardando desde 2010 o julgamento. Espero ao final, reverter a situação, pois concordo plenamente com o nobre juiz que a tatuagem nao muda carater e esse preconceito ainda existente deve ser afastado. Na minha opinião, as tatuagens nao passam de uma expressão artistica.

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  • Vinicius Fleuri

    30/08/2013

    O Preconceito com tatuados realmente existe e é forte, principalmente em Goiás. Sou Policial Militar e fiz a minha primeira tatuagem após o início na profissão, muitos colegas ficaram assustados com a atitude, porém, os demais que já tinham tatuagens passaram a me olhar de forma melhor.
    Meu caráter não mudou, aliás, descobri novos amigos.
    Por outro lado, apesar de ter 30 anos de idade, minha família não sabe ainda, pois são extremamente conservadores e é certo que ficarão insatisfeitos.
    Mas é isso, fiz uma, vou fazer mais umas quatro.

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